Depois do desgaste, dores pelo corpo, joelho inchado e panturrilha dura igual a uma pedra, vai bem um espumante bem gelado, na beira da piscina.

Crônica do Corredor de Rua

por Katia Parente

O despertador toca às quatro da madrugada. Ele se levanta, se lava e vai tomar seu café da manhã. Frutas e pães fazem parte da dieta, pois sabe que precisará de calorias extras para gastar. Depois de estar com a roupa adequada para correr, normalmente um shorts curto e uma camiseta de dry fit, ou até a camiseta da própria corrida, ele precisa usar o banheiro. O intestino, mesmo as quarto e meia da manhã, precisa funcionar antes de sair de casa.

Algumas pessoas não tem problemas com isso, mas já soube de outras que precisam fazer polichinelos até ter vontade de ir ao banheiro. Cada um a sua maneira, todos precisam evacuar antes.

Muito bem! Todas as necessidades atendidas, vamos para o local de concentração da prova. Alguns atletas vão juntos, alguém com o próprio carro passa para buscar os colegas mais próximos e seguem pelas ruas vazias da madrugada. O caminho é animado e a ansiedade cresce a cada minuto. Sabem que há um percurso para correr que nem sempre é tão fácil, muitas vezes com subidas infinitas, sem contar as corridas de montanha onde devem ser cruzados rios e trilhas cheias de lama, porém a paixão pela corrida é maior que tudo isso.

Ao chegar no local da prova, como há milhares de participantes, só conseguem estacionar o carro longe, sendo necessária uma caminhada de um quilometro até a largada. Já é um aquecimento.

Finalmente no local da largada, um aglomerado de pessoas, todas com seus bonés e tênis adequados se agitam para acordar os músculos. Há um locutor que irá narrar a corrida dos profissionais e enquanto não chega a hora, ele vai agitando o público com noticias, música e mensagens de incentivo. Ainda faltam cerca de trinta minutos para a tão esperada largada, sobrando tempo para alongar e claro, usar o banheiro mais uma vez.

Uma fileira de caixas de plástico com portas está acomodada em uma rua, há os conhecidos desenhos de bonequinhos e bonequinhos com saia, identificando os banheiros. Filas enormes de atletas aguardando a sua vez de dar uma última esvaziada no tanque, antes de começar a correr. Quando consegue entrar no banheiro, o que quase é esvaziado é o estômago, pois o cheiro e o visual internos das caixas é algo parecido com um filme de guerra onde alguém está torturando um outro alguém. Praticamente impossível respirar e ficar com os olhos abertos para tamanha imundice! Mas as necessidades fisiológicas devem ser atendidas, portanto, ele contribui para deixar o banheiro químico um pouco mais sujo do que estava quando entrou.

Enquanto está trancado na casinha tentando eliminar qualquer peso desnecessário, ouve o locutor anunciar a largada do pelotão de elite, ou seja os profissionais. Um alvoroço do lado de fora o deixa desesperado e ansioso, sabe que tem apenas alguns minutos para se livrar da sujeira e ir até sua posição de largada. Limpa o serviço de qualquer jeito e sai correndo da cabine, respirando o máximo de ar que consegue, pois até então estava no modo econômico, evitando desmaiar.

Corre para a largada onde se acomoda entre o amontoado de pessoas, na expectativa. A ansiedade aumenta, batimentos cardíacos altos e pernas inquietas. Olha o relógio pela milésima vez, até que, como uma voz libertadora o locutor anuncia a largada, junto com o toque de uma buzina estridente.

Um mar de gente começa a correr, de início todos juntos espremidos, exceto aqueles que conseguiram ficar logo atrás do bloco da elite, assim tiveram mais espaço. Aos poucos o aglomerado vai dispersando, em quinhentos metros é possível desenvolver a velocidade adequada, cada um tem a sua. Os primeiros quilômetros são agradáveis, pessoas acenando, câmeras de emissoras de TV filmando, muita gente assistindo e torcendo, bandeiras de times,  de cidades e das academias balançam como incentivo, o agito estimula a seguir rumo ao percurso estabelecido, até que na metade do segundo quilômetro tudo isso acaba.

Agora o que se ouve é o ruído dos tênis de corrida golpeando o asfalto e sua própria respiração. O que era festa e movimento, se transforma em solidão, é necessário vencer muitos quilômetros de pensamentos, medos e ideias que surgem na cabeça do corredor durante uma prova.

Alcança os postos de água. Outro agito, pessoas se espremendo para pegar um copo com água, metade é para jogar na cabeça e aliviar a temperatura, a outra metade para beber. Após conseguir beber uns goles de água, o retorno ao silêncio e à respiração. Arrependimentos, dores, uma vida de imagens passam pela sua mente. “Acho que não farei mais isso… não vou aguentar… essa é a mais difícil…” No entanto, nada disso o faz desistir.

Corre, pé após pé, metro após metro. O cansaço chega, fica difícil controlar a respiração, a roupa está encharcada de suor e água, uma subida acaba com o restante do folego. Olha adiante e o que vê é uma ladeira sem fim coberta de pessoas correndo, ao mesmo tempo colorido e desesperador.

Quase no final da ladeira, quando o pulmão já não consegue puxar a quantidade de ar que o corpo pede, ele começa a pensar outra vez que não devia ter ido; aceitou o desafio sem saber se seria capaz. Pensa que deveria ter treinado mais,  dedicado mais tempo e com mais afinco.

Sua mente viaja até lugares mais confortáveis para tentar aliviar o sofrimento, perdendo-se em fantasias, então um ruído distante o chama para a realidade, uma música, uma pessoa falando. É o locutor! Está chegando!

Ele corre mais rápido, sabe que agora falta pouco. Corre, acelera o passo, respira fundo e vê logo a frente o pórtico da chegada. Todo o cansaço se desfaz e as dores somem. Junto com os outros corredores, dá o sprint final e de braços abertos conclui a prova.

Os amigos que já chegaram vêm ao seu encontro para festejar, abraços suados são correspondidos e eles aguardam os que estão vindo a seguir e todos satisfeitos por terem concluído a corrida comemoram com risadas e piadas.

Segurando a medalha na boca, tira muitas fotos e junto com os colegas começa a programar a próxima.