A Fuga

por Katia Parente

Às vezes nos procuramos fora de nós e não encontramos nada, então tome um gole de vinho tinto e procure aí dentro, certamente irá encontrar algo muito interessante!

Parecia ter andando um mês inteiro sem parar, tantos eram os pensamentos que passaram pela sua cabeça. Alguns problemas incomodavam há muito tempo e isso estava acabando com sua saúde. A carreira profissional desgastada, um relacionamento instável e a sua ânsia em conhecer o mundo. Nada bastava por muito tempo, precisava ter sempre um projeto novo em mente, do contrário, sua rotina se transformava em um colchão de espinhos. Por isso, tomou a decisão de viajar por um tempo, assim poderia avaliar os problemas de fora e desafiar seus paradigmas.

A estrada coberta com um asfalto velho era contornada por uma vegetação seca e sem graça. Não conseguia ver muito mais, pois a paisagem se escondia em uma névoa espessa que desfilava com a velocidade do vento.

Caminhava com suas botas de cano médio e sola de borracha, as melhores para este tipo de atividade, foi o que disseram, embora com o cansaço tudo incomodava, principalmente a mochila. No entanto, não se deixava abater, tinha feito a promessa de terminar a caminhada, não importando quanto tempo levaria.

Alguns dias já tinham passado e a neblina não dissipara. Era difícil ver a paisagem, seguia a estrada conforme os sinais que identificavam o percurso. Notou algumas árvores robustas, não eram muito altas, mas possuíam um corpo bem definido, talvez fossem bem velhas. Uma delas chamou sua atenção, tinha uma protuberância na base do tronco que parecia duas nádegas. Divertiu-se com a imagem e seguiu o caminho.

A tarde avançava cinzenta, não abrindo espaço para ver o céu, mas deixou que a figura de uma casa surgisse na beira da estrada. Eram paredes de pedra com o telhado em parte destruído e o mato crescia entre as fissuras. A única parede inteira tinha uma janela, sobrando só o buraco por onde se via escuridão.

Esticou o pescoço para espiar dentro, só breu. De repente, uma brisa fria abraçou seu rosto e um assovio intenso veio de dentro da casa. Um arrepio fez seu corpo estremecer, o céu escureceu ainda mais com nuvens negras e a névoa cobriu tudo ao redor, como se estivesse flutuando junto com aquela ruína. Ficou imóvel, sentia que o tempo também havia parado. Não percebia nenhum movimento, não ouvia pássaros, nem vento, só o assovio e a brisa gelada, ambos saindo daquela janela escura.

Saiu da hipnose e recuperou o fôlego, afastando-se da casa. Deu uma respirada profunda e pensou que seria tudo coisa da sua imaginação, talvez o cansaço do dia. Voltou a caminhar, mas percebeu algo estranho. Pelo horário deveria chegar em algum albergue e o dia começaria a escurecer, mas isso não acontecia. Andou mais um pouco e a imagem que antes causou diversão, provocou um aperto em seu estômago. A árvore em forma de bunda outra vez! Tinha certeza que não fizera nenhuma curva, o caminho era reto. Como podia ter retornado ali? O suor fez um contorno pela sua nuca.

No início havia outros peregrinos, não conversou com ninguém, pois cada um seguia seu ritmo, mas agora reparou que a estrada estava deserta há algumas horas. Teria se perdido?

O vento soprou e provocou frio. Em um intervalo breve, a neblina dissipou e pôde ver a paisagem, as montanhas ao redor desenhadas no horizonte e cobertas por vegetação. Mal desfrutou daquela beleza e a névoa cobriu tudo outra vez. Pensamentos perversos voltaram, os amigos dizendo o que deveria fazer, o chefe reclamando resultados, sua própria consciência cobrando que deveria ser uma pessoa correta e amada. Pensou que, se pudesse, acabaria com a vida de todoseles, mas não perdia muito tempo cozinhando as ideias, voltava sua atenção para o percurso e se convencia que tudo iria se resolver.

Aquilo continuava esquisito. O vento parecia mais frio e havia um silêncio incômodo, sem pássaros ou barulho das folhagens. Só a sua respiração ofegante e as botas judiando o solo. Até que chegou a um ponto acima da neblina e tudo ao redor era um mar branco de nuvens. Uma tela a ser pintada. Procurou a estrada, mas não encontrou.

Sentiu o coração disparar, as pernas amoleceram. Onde estava? Seguiria de volta por onde veio, mas o caminho não estava lá. As nuvens corriam sob seus olhos e não identificava nenhuma direção, não havia início nem fim. Perdera o rumo. A caminhada surtira efeito, conseguira limpar as ideias, mas deixou tudo para trás. Na limpeza descartou sentimentos, lembranças e sonhos, fugira de coisas que nem sabia existir e agora não tinha direção. Seu corpo era a carcaça que protegia a escuridão de onde saía um assovio.